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Dad

Domingo, 04.03.12

Às vezes, gostava de saber o porquê. Ouvimos tantas vezes a célebre frase 'Os amigos podemos escolher. A família não.' e, de facto, é verdade. Quantas vezes, também, ouvimos muitas mais reclamações dos amigos, em tom de desabafo, sobre a família e muitas menos acerca dos amigos. Mas... Engraçadas são as memórias que temos com a família. Os momentos que relembramos ou partilhamos com alguém sobre a mesma. O gosto e a expressão são diferentes. O sentimento é diferente.

 

Numa das belas tardes de Verão que passei contigo, no seio de uma das nossas conversas, pedi-te para me recordares momentos meus, contigo, enquanto pequena. Aqueles que dão gosto ouvir, pois a nossa memória falha muitas vezes se nos queremos lembrar de algo muito antigo. Tu começaste-te a rir e calaste-te. E eu... 'Então? Estou à espera...'. Conseguiste-me responder apenas que foram muitos e que não te conseguias lembrar assim de algum em específico. Pensei eu... 'Nem um?'... Lá me contaste:

" Eras pequenina e estavas com alguma coisa assim daquelas que os pequeninos apanham, assim os bebés... E lembro-me de te levar ao hospital e estar contigo na sala de espera. Estavas sentada ao meu lado e, depois, encostaste a tua cabecinha a mim." E foi isto. Nada demais ou que me surpreendesse mas... Conhecendo como te conheço, sei que para ti significou muito o facto de me ter encostado a ti. Só porque, quando somos pequenos, não temos a percepção do quanto amamos os nossos pais. E vocês têm. Lá por não ter essa noção na altura e só a ter ganho anos depois, não significa que nunca te tenha amado. Sei que te amei desde o meu primeiro dia de vida. Continuei a amar e ainda amo. Durante 20 anos que partilhamos tudo. Quase tudo. Desde o cuidares de mim através de tanta coisa: banhos, gripes, escola, ralhar; ensinar, tentar dar sempre o melhor... Tanto material, como emocional. Quantas vezes errei e continuo a errar contigo. Já te menti; já omiti; já te repreendi; já te aborreci; já te fiz chorar. Mas, por outro lado... Tanto me ensinaste; tanto que eu te ensinei. Quantos desabafos ouvi e continuo a ouvir teus, daqueles que só comigo partilhas. Sei que sou a tua melhor amiga e que me davas a vida se eu precisasse. Tenho a noção do quanto me amas. Às vezes fazes com que me esqueça disso. Fazes-me sofrer e tu sabes disso. Pedes-me desculpa e não esperas outra coisa de mim senão o perdão, porque tu sempre me perdoaste em tudo. Mas não é por isso que eu te perdoo. Perdoo-te porque te conheço. Porque sei quem já foste e não consegues ser mais; perdoo-te porque o vício é o defeito mais fácil de se perdoar. Porque, neste tempo todo que vivi e vivo contigo, reconheço que não tiveste um trilho muito colorido de vida. É preciso ter um grande estômago para tudo isso, para toda a tua vida. Contudo, há atitudes que não se desculpam por isso. Se tu sofres, eu sofro. Se tu estás farto, também eu estou. Não custa pensar um bocado em mim, como eu penso em ti. Tento meter-me no teu lugar e, de certa parte, compreendo algumas coisas tuas. Tenho pena de não fazeres o mesmo comigo. Se calhar algumas coisas mudavam, para melhor. Não tens a necessidade de te refugiares no que te faz mal e te estraga. Tens-me a mim. E eu sei que sou grande o suficiente para tapar todos esses buracos. Podias chorar, podias desabafar e eu continuaria de braços abertos para ti e ultrapassava todas as tuas mágoas contigo. Partilhavas a tua dor comigo e tudo ia ficar tão melhor. Eu não sei mais sobre a vida do que tu, mas não te esqueças que também aprendes connosco. Todos os exemplos que me deste não foram bons e, os menos bons, eu apliquei-os em mim, mas de forma contrária. E eu orgulho-me disso, porque tive a capacidade de não os seguir. E tu também deves ter orgulho nisso. Sei que tens orgulho em mim, mas eu tenho muito mais. Muito do que sou não me ensinaste. Aprendi eu, sozinha, observando tudo. Para mim, não faziam e nunca farão sentido todas as memórias menos boas que tenho, por isso não entrei por onde vocês entraram. Nunca sei o dia de amanhã mas hoje tenho a certeza que não é isso que quero, pelo contrário. 

Mas há uma coisa... Eu sempre me orgulhei de ser tua filha, em todos os momentos. Vergonha? Nunca. Sou sortuda em ter um pai como tu, apesar de, muitas vezes, as coisas não estarem bem. O amor compensa. Sempre me deste tantos mimos, tantos... Nunca me bateste, sempre me deste confiança e liberdade, amor. Contigo, passei os melhores momentos da minha vida. Não preciso de descrevê-los. Foram 20 anos cheios de tudo... Espero que hajam muitos mais e que a vida sorria mais para ti. Hoje, acho que já fiz mais que o suficiente. Os papéis invertem-se. Eu estou agora a começar a construir a minha vida, o meu futuro. Tu, ja o construíste e hoje segues o teu caminho como queres. Por mais que seja o teu mundo, o teu tesouro e tu sejas o meu fã nº1, não sou mais do que isso para te fazer ver que ainda tudo vale a pena. As coisas podem ser melhores, muito melhores. É só quereres. Vais ter muito tempo para descansares... 

 

Amo-te muito, muito, muito... 

 

 


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publicado por themelodyofwriting às 19:40





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